Entre testemunhos e corresistências

Uma abordagem interseccional à consciência do direito

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21910/rbsd.v13i2.908

Palavras-chave:

Interseccionalidade, consciência, Resistência

Resumo

Tendo como ponto de partida as perspectivas de Ewick e Silbey (1998, 2020), este artigo estabelece as bases para a proposta de uma abordagem interseccional da consciência jurídica. Para tal, confere ênfase aos fenômenos do poder, da dominação e das desigualdades sociais, destacando a fundamentalidade das dimensões do contexto e das instituições em análises em torno da consciência do direito. A partir das reflexões de Collins e Bilge (2020) e da teoria crítica dos direitos humanos, sugere-se uma abordagem da consciência jurídica que contemple um enfoque à cidadania, mormente tendo em conta a violação e a reivindicação de direitos, notadamente os sociais, em contextos de acentuadas desigualdades. Nesse sentido, este artigo revisa a literatura acerca do tema e promove um diálogo entre perspectivas, do que propõe uma expansão dos limites e do escopo dos estudos da consciência jurídica. Como desdobramentos futuros, vislumbra-se a mobilização do enfoque sugerido em reflexões que contemplem as tensões existentes entre o que se pode designar, de um lado, de corresistências e, de outro, de contramovimentos, desde a dimensão do cotidiano; e considerando-se as repercussões de tais mobilizações sobre o regime democrático.

Biografia do Autor

Isabella Faustino Alves, Universidade de Coimbra

Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Coimbra-UC e em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense-UFF, em regime de cotutela internacional. Mestre e Especialista em Direito Constitucional, com pós-graduação em Direitos Humanos e Direito do Estado. Defensora Pública.

Maria Alice Nunes Costa, Universidade Federal Fluminense

É socióloga, cientista política e doutora em planejamento urbano e regional. Possui Pós-Doutorado em Sociologia pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (Portugal); Doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ); estágio de doutoramento na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Mestre em Ciência Política e Bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi pesquisadora visitante na De Montfort University (Inglaterra) e na Vanderbilt University (EUA). É pesquisadora colaboradora do CES, Portugal, desde 2007. É Professora Associada da Universidade Federal Fluminense no Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS, Departamento de Arte) e no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito (PPGSD/ UFF). Possui ampla experiência em políticas públicas, governança e participação social como gestora pública e acadêmica, coordenando o Laboratório LADER (Laboratório de Políticas Públicas, Governação e Desenvolvimento Regional/CNPq). Atua no campo da Arte com a fotografia, como processo criativo, comunicacional e educacional. É Pesquisadora em Produtividade PQ 2 do CNPq.

Referências

ARNAUD, Andre-Jean et al. Dicionário enciclopédico de teoria e de sociologia do direito. Rio de Janeiro: Renovar, 1999.

BARBER, Benjamin. Strong democracy: Participatory politics for a new age. Berkeley: University of California Press, 2003.

BEI, Zahra; KNOWLER, Helen. Disrupting unlawful exclusion from school of minoritised children and young people racialized as Black: Using critical race theory composite counter-storytelling. Emotional and behavioural difficulties, v. 27, n. 3, 2022, pp. 231–242. DOI: https://doi.org/10.1080/13632752.2022.2146225. Acesso em 11 abr. 2024.

BORDA, Orlando. Una sociología sentipensante para América Latina. Bogotá: Siglo del Hombre Editores, 2009.

BOURDIEU, Pierre. Meditações pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Loïc. An invitation to reflexive sociology. Chicago: University of Chicago Press, 1992.

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: Notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

CANOTILHO, Joaquim. Direito constitucional e teoria da constituição. 7. ed. Coimbra: Almedina, 2003.

COLLINS, Patricia. Aprendendo com a outsider within: A significação sociológica do pensamento feminista negro. Revista Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, 2016, pp. 99-127. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-69922016000100006. Acesso em 10 fev. 2023.

COLLINS, Patricia; BILGE, Sirma. Interseccionalidade. São Paulo: Boitempo Editorial, 2020.

COMAILLE, Jacques. Uma sociologia política do direito. Revista da Faculdade de Direito Universidade de São Paulo, 108, 2013, pp. 929–933. DOI: https://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/68009.

CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the margins: Intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, 1991, pp. 1241-1299. DOI: https://doi.org/10.2307/1229039. Acesso em 8 jun. 2021.

EWICK, Patricia; SILBEY, Susan. The common place of law. Chicago: University of Chicago Press, 1998.

EWICK, Patricia; SILBEY, Susan. Conformismo, oposición y resistencia: Un estudio sobre conciencia jurídica. In: VILLEGAS, Mauricio (Org.). Sociología jurídica: Teoría y sociología del derecho en Estados Unidos. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2006, p. 268-289.

EWICK, Patricia; SILBEY, Susan. Sociology of legal consciousness and hegemony. In: PŘIBÁŇ, Jiří (Org.). Research handbook on the sociology of law. Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2020, p. 163-176.

FLORES, Joaquín. Los derechos humanos como productos culturales: Crítica del humanismo abstracto. Madrid: Los Libros de la Catarata, 2005.

GAGO, Verónica. A potência feminista ou o desejo de transformar tudo. São Paulo: Editora Elefante, 2020.

GALLARDO, Helio. Direitos humanos como movimento social: Para uma compreensão popular das lutas por direitos humanos. Rio de Janeiro: Faculdade Nacional de Direito, 2019.

GONZÁLES, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira: Uma abordagem político-econômica. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia. (Orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 43-57.

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista ao final do século XX. In: HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; DA SILVA, Tomás (Orgs.). Antropologia do ciborgue: As vertigens do pós-humano. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009, p. 33-118.

HARRIS, Angela; LEONARDO, Zeus. Intersectionality, race-gender subordination, and education. Review of Research in Education, 42, 2018, pp. 1–27, DOI https://doi.org/10.3102/0091732X18759071.

NUSSBAUM, Martha. Creating capabilities: The human development approach. Cambridge: Harvard University Press, 2011.

PÉLISSE, Jérôme. A-t-on conscience du droit? Autour des Legal Consciousness Studies. Genèses, v. 59, n. 2, 2005, pp. 114-130. DOI:10.3917/gen.059.0114. Acesso em 18 nov. 2023.

PIANA, Daniela; SCHIJMAN, Emilia; WAGENER, Noé. Where is the law living? Juridicity and methods of research in the works of Susan Silbey. Droit et société, v. 100, n. 3, 2018, pp. 645-655. Disponível em: https://ds.hypotheses.org/files/2018/12/6-Piana-Schijman-et-Wagener.pdf. Acesso em: 22 abr. 2024.

RICOEUR, Paul. Caminos del reconocimiento: Tres estudios. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 2006.

RUBIO, David. Encantos y desencantos de los derechos humanos: De emancipaciones, liberaciones y dominaciones. Barcelona: Icaria Antrazyt, 2011.

RUBIO, David. Derechos humanos instituyentes, pensamiento crítico y praxis de liberación. Ciudad de México: Akal, 2018.

SARAT, Austin. “...El derecho está en todas partes”: El poder, la resistencia y la conciencia jurídica de los pobres que viven de la assistência social. In: VILLEGAS, Mauricio. (Org.). Sociología jurídica: Teoría y sociología del derecho en Estados Unidos. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2006, p. 218-266.

SILBEY, Susan. Everyday life and the constitution of legality. In: JACOBS, Mark; HANRAHAN, Nancy (Orgs.). The Blackwell companion to the sociology of culture. Malden: Blackwell Publishing, 2005, p. 332-345.

SILBEY, Susan. Studying legal consciousness: Building institutional theory from micro data. Droit et société, v. 100, n. 3, 2018, pp. 733-788. DOI: 10.3917/drs1.100.0685. Acesso em 30 mar. 2024.

SILBEY, Susan. The everyday work of studying the law in everyday life. Annual Review of Law and Social Science, 15, 2019, pp. 1-18. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-lawsocsci-110316-113326.

SILVA, Marcelo; PEREIRA, Matheus. Movimentos e contramovimentos sociais: O caráter relacional da conflitualidade social. Revista Brasileira de Sociologia, v. 8, n. 20, 2020, pp. 26-49. DOI: https://doi.org/10.20336/rbs.647. Acesso em 11 nov. 2024.

SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.

TURNER, Bryan. Vulnerability and human rights. University Park: The Pennsylvania State University Press, 2006.

TURNER, Bryan. Introduction. In: TURNER, Bryan. (Org.), The new Blackwell companion to social theory. West Sussex: Wiley-Blackwell, 2009, p. 1-16.

VILLEGAS, Mauricio. Symbolic power without symbolic violence? Critical comments on legal consciousness studies in USA. Droit et Société, 53, 2003, pp. 137-163. DOI:10.3917/drs.053.0137.

Downloads

Publicado

2026-05-27